CONDIÇÃO · CARIOLOGIA E DENTÍSTICA
Lesão cervical não cariosa
Perda de estrutura na cervical SEM bactéria. A restauração não trata a causa — e é a que mais falha em toda a dentística direta.
LCNCTambém: LCNC, lesão em cunha, abrasão cervical, erosão dentária, abfração
Condição bucal — é o que se trata
O que é
Perda de estrutura dentária na junção amelocementária sem envolvimento bacteriano, de superfície lisa, muitas vezes brilhante e endurecida, em cunha, em prato ou em concavidade rasa. Três mecanismos se somam: abrasão (escovação traumática), erosão (ácido extrínseco ou intrínseco) e a hipótese da abfração (estresse oclusal). Biótipo gengival fino não causa a lesão, mas favorece a recessão que expõe a cervical.
Não se ajusta oclusão para tratar LCNC
Não desgastar dente sadio para criar retenção
Sem foto datada, 'progrediu' e 'não progrediu' são impressão
Excesso cervical deixado produz inflamação gengival permanente — e a culpa costuma ser atribuída à higiene do paciente
O que perguntar na anamnese
- Com que escova o senhor escova? Com quanta força? Quantas vezes por dia?
- Toma refrigerante, suco cítrico, vinagre, vinho, água com limão? Com que frequência, e em que momento do dia?
- Tem azia, refluxo ou queimação? Costuma vomitar?
- Sente sensibilidade ao frio nesses dentes? Atrapalha alguma coisa?
O que observar
- Superfície lisa, brilhante e endurecida à sondagem — o oposto da lesão cariosa cervical, que é opaca e rugosa
- Padrão de abrasão: em cunha, vestibular, mais marcado do lado oposto à mão dominante
- Padrão de erosão extrínseca: mais vestibular; intrínseca: mais palatina e oclusal — a face orienta, a anamnese fecha
- Sinais de ATIVIDADE: superfície fosca, sensibilidade presente, margens nítidas, progressão documentada
- Sinais de ESTABILIDADE: superfície polida e brilhante, dentina esclerosada e escurecida, sem sintoma, dimensão inalterada em registro anterior
Como interfere no atendimento
- A restauração cobre o que já se perdeu; ela não impede a progressão nem trata a causa
- Umidade: a margem fica na altura da gengiva ou abaixo, com fluido crevicular contínuo — contaminação da margem é a causa nº 1 de falha adesiva
- Geometria expulsiva: não há parede retentiva, e só a adesão segura a restauração
- Dentina esclerosada condiciona e infiltra pior que dentina hígida
Riscos
- Restaurar sem tratar a causa: a restauração cai, ou a lesão continua ao lado dela
- Ajustar oclusão para 'tratar abfração' — intervenção irreversível apoiada em causalidade não demonstrada
- Erosão intrínseca não investigada: refluxo e transtorno alimentar são diagnósticos médicos, e o desgaste palatino pode ser o primeiro sinal
A decisão do dia
Adaptar
- Restaurar apenas com uma das quatro indicações: sensibilidade que não cede ao dessensibilizante, lesão profunda com risco pulpar ou de fratura, estética que incomoda, ou exigência protética/periodontal
- Isolamento absoluto com grampo cervical retrator estabilizado; na impossibilidade, relativo COM fio retrator intrassulcular
- Asperizar a dentina esclerosada e condicionar por 30 s, com aplicação ativa do adesivo
- Ionômero de vidro tem a melhor retenção nesta indicação; resina onde a estética manda; sanduíche combina as duas
Adiar
- Lesão rasa, estável e assintomática em quem ainda escova com força: primeiro a escova, depois a resina
Encaminhar ou interconsultar
- Suspeita de erosão intrínseca — refluxo, vômito recorrente, transtorno alimentar — para avaliação médica
Onde as aulas ensinam isto
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